Cálculo de escada
O cálculo de escada não é uma divisão, é uma interseção. A NBR 9050 impõe três condições que precisam valer ao mesmo tempo, e é a sobreposição delas que sobra como escada possível. Esta calculadora testa todas as divisões do seu desnível, descarta as que violam qualquer uma das três e devolve a mais confortável entre as que sobraram.
Degraus, espelho e piso
Informe a altura total do desnível, de piso acabado a piso acabado. O resultado é conferido contra o item 6.8.2 da NBR 9050.
As três condições do item 6.8.2
A norma dispensa a escada de ter uma fórmula única. Ela dá três restrições, e qualquer escada que atenda às três está regular:
- Relação de Blondel: 0,63 m ≤ p + 2e ≤ 0,65 m, onde p é o piso, a profundidade do degrau, e e é o espelho, a altura dele.
- Piso: 0,28 m ≤ p ≤ 0,32 m.
- Espelho: 0,16 m ≤ e ≤ 0,18 m.
Há uma quarta exigência que não é numérica e costuma ser a mais violada na obra: as dimensões precisam ser constantes em toda a escada. Um último degrau mais baixo que os outros, para "fechar" o desnível que sobrou, é irregular e é uma das causas mais comuns de queda, porque quem sobe já calibrou o passo pelos degraus anteriores.
De onde vem o 63 a 65
A relação de Blondel não saiu de uma tabela normativa, e sim da observação do passo humano. O passo de uma pessoa em terreno plano fica em torno de 63 cm a 65 cm. Ao subir, o passo encurta na proporção da altura que o pé precisa vencer, e é isso que a fórmula descreve: cada centímetro ganho em altura custa dois centímetros de profundidade.
A consequência prática é que espelho e piso não são escolhas independentes. Aumentar o espelho obriga a reduzir o piso, e o intervalo em que os dois ainda cabem nas faixas da norma é estreito. Com espelho de 18 cm, o piso só pode ficar entre 28 cm e 29 cm. Com espelho de 16 cm, ele fica obrigatoriamente entre 31 cm e 32 cm.
Por que certas alturas simplesmente não fecham
O espelho tem que ser constante, então ele é a altura total dividida por um número inteiro de degraus. Isso limita bastante: para uma altura h em centímetros, o número de degraus precisa ficar entre h/18 e h/16. Se não existir inteiro nesse intervalo, não existe escada regular para aquele desnível.
Um desnível de 95 cm é um exemplo. Entre 95/18 = 5,28 e 95/16 = 5,94 não há inteiro. Com 5 degraus o espelho fica em 19 cm, acima do limite; com 6, cai para 15,8 cm, abaixo dele. Nenhuma divisão serve.
Escada reta, com patamar e em L
O cálculo de degraus é o mesmo nos três casos, porque o espelho e o piso não mudam. O que muda é o espaço ocupado e o momento em que o patamar entra.
A projeção horizontal de uma escada reta usa um piso a menos que o número de degraus, porque o último espelho desemboca direto no piso de cima. Uma escada de 16 degraus tem 15 pisos de projeção, não 16. É um erro de uma casa que aparece direto em orçamento de marcenaria.
O cálculo de escada com patamar acrescenta duas obrigações. A norma exige patamar a cada 3,20 m de desnível e sempre que houver mudança de direção, com no mínimo 1,20 m de dimensão longitudinal. Em escada em L ou em U, o patamar da curva precisa ter a mesma dimensão da largura da escada. Some esse comprimento à projeção que a calculadora devolve: ela entrega a escada, não os patamares.
Escada com lances curvos
Quando os lances são curvos ou mistos, o dimensionamento segue a ABNT NBR 9077, com uma condição adicional da NBR 9050: a 55 cm da borda interna, que é a linha por onde caminha quem se segura no corrimão, os pisos e espelhos precisam obedecer aos mesmos limites do item 6.8.2.
Escada tipo Santos Dumont
A escada de degraus alternados, conhecida como Santos Dumont, resolve desnível em espaço muito apertado justamente porque abandona a geometria do item 6.8.2. Ela não é dimensionada por esta calculadora e não pode compor rota acessível. Em projeto, ela aparece como recurso de último caso para acesso restrito, tipo sótão ou mezanino técnico, e não como escada principal.
Exemplo resolvido: pé-direito de 2,80 m
É a altura mais comum entre pavimentos residenciais. O intervalo de degraus possíveis vai de 280/18 = 15,6 a 280/16 = 17,5, o que deixa 16 e 17 como inteiros disponíveis.
| Degraus | Espelho | Piso por Blondel | Projeção horizontal |
|---|---|---|---|
| 16 | 17,5 cm | 29,0 cm | 4,35 m |
| 17 | 16,5 cm | 31,1 cm | 4,97 m |
As duas atendem à norma. A de 17 degraus é mais confortável, com degrau mais baixo e piso mais fundo, e custa 62 cm a mais de comprimento. A escolha entre elas é de espaço disponível, não de regularidade. Quando o vão é apertado, a de 16 resolve sem infringir nada.
O que fica fora do cálculo de degraus
- Largura: mínimo de 1,20 m em rota acessível. Para escada de uso coletivo, o dimensionamento por fluxo é da NBR 9077.
- Corrimão: nos dois lados, em duas alturas, 0,92 m e 0,70 m, medidas da face superior até o bocel do degrau, com prolongamento de 0,30 m nas extremidades.
- Bocel: quando existir, pode avançar no máximo 1,5 cm sobre o piso de baixo. Em rota acessível, espelho vazado não é permitido.
- Afastamento: em construção nova, o primeiro e o último degrau precisam distar no mínimo 0,30 m da área de circulação adjacente.
- Inclinação transversal: no máximo 1 % em escada interna e 2 % em externa.
Para decidir o que a conta não decide
- Escada caracol e escada em leque Degrau ingrauxido, bomba mínima de 0,97 m e a folga de 7 cm que libera a escada de casa.
- Guarda-corpo de escada e sacada Altura, vão entre barras e carga, com dois documentos primários que discordam do número.
- Patamar de escada Quando é obrigatório, e por que a fórmula do comprimento quase nunca fecha no primeiro valor.
Perguntas frequentes
- Qual a fórmula para calcular escada?
- A relação de Blondel, adotada pela NBR 9050 no item 6.8.2: o piso somado a dois espelhos deve ficar entre 63 cm e 65 cm. Além dela, valem dois limites independentes: o espelho entre 16 cm e 18 cm, e o piso entre 28 cm e 32 cm. As três condições precisam ser atendidas ao mesmo tempo, e é a interseção delas que define as escadas possíveis.
- Como calcular os degraus de uma escada?
- Divida a altura total do desnível por um número inteiro de degraus até que a altura de cada espelho caia entre 16 cm e 18 cm. Esse número inteiro é a quantidade de degraus. Em seguida, tire o piso pela relação de Blondel, subtraindo dois espelhos de 64 cm, e confira se o resultado ficou entre 28 cm e 32 cm.
- Como calcular escada com pé-direito de 3 metros?
- Com 300 cm de desnível, as divisões que mantêm o espelho na faixa da norma vão de 17 a 18 degraus. Com 17 degraus o espelho fica em 17,6 cm e o piso em 28,7 cm. Com 18 degraus o espelho cai para 16,7 cm e o piso sobe para 30,7 cm, que é a opção mais confortável. Lembre que 300 cm passa de 3,20 m só se houver revestimento espesso; abaixo disso, não há patamar obrigatório por altura.
- Por que algumas alturas não fecham em nenhuma escada?
- Porque o espelho precisa ser constante em toda a escada e cair entre 16 cm e 18 cm. Se nenhum divisor inteiro da altura total produzir um espelho nessa faixa, não existe escada regular para aquele desnível exato. A saída não é forçar o degrau, e sim ajustar a altura, o que normalmente se resolve na espessura do contrapiso ou do revestimento do pavimento superior.
- Quando a escada precisa de patamar?
- A cada 3,20 m de desnível, e sempre que houver mudança de direção. O patamar precisa ter no mínimo 1,20 m de dimensão longitudinal, e quando fica em mudança de direção deve ter a mesma dimensão da largura da escada. Se houver porta no patamar, a área de varredura dela não pode invadir essa medida mínima.
- Qual a largura mínima de uma escada?
- Em rota acessível, 1,20 m, conforme o item 6.8.3 da NBR 9050. O dimensionamento por fluxo de pessoas, que vale para escadas de uso coletivo e rotas de saída, segue a ABNT NBR 9077, não a NBR 9050.
- Quantos degraus fazem uma escada?
- Três ou mais. Uma sequência de até dois degraus é considerada degrau isolado, e a norma orienta evitá-la. Quando o degrau isolado for inevitável, o corrimão passa a ser obrigatório e a sinalização precisa cobrir toda a extensão.
Fontes
- ABNT NBR 9050:2015, emenda 1:2020, itens 6.7, 6.8 e 6.9 Cópia publicada pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Norte. As três condições do item 6.8.2, os limites de patamar e as alturas de corrimão desta página foram lidos diretamente deste documento.
- ABNT NBR 9050:2015, emenda 1:2020, cópia do CREA-SP Usada para conferir os mesmos valores em uma segunda fonte institucional.