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Flurxo

NBR 14931

Desforma e retirada do escoramento

Todo mundo repete uma tabela de dias por tipo de peça. Ela não está na norma de execução em vigor, e o que está no lugar dela é mais exigente.

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A pergunta mais feita em obra de laje é quantos dias esperar para tirar a forma. A ABNT NBR 14931, na edição de 2004 que lemos, não responde com dias. Ela diz que fôrmas e escoramentos não devem ser removidos, em nenhum caso, até que o concreto tenha adquirido resistência suficiente para três coisas ao mesmo tempo, e transfere ao responsável pelo projeto estrutural a obrigação de informar dois valores numéricos ao executante: resistência à compressão mínima e módulo de elasticidade mínimo, a serem obedecidos concomitantemente.

A cura, que corre em paralelo e às vezes depende da própria fôrma, está em cura do concreto. O volume e o traço saem da calculadora de concreto.

Os três critérios da norma

O concreto precisa ter resistência suficiente para suportar a carga imposta ao elemento estrutural naquele estágio, para evitar deformações que excedam as tolerâncias especificadas, e para resistir a danos na superfície durante a remoção. Os três valem juntos, e o segundo é o que costuma governar em laje.

Repare que os três critérios são de estado, não de tempo. Uma laje concretada em janeiro no Nordeste e a mesma laje concretada em julho no Sul chegam a esse estado em prazos diferentes, com o mesmo traço e o mesmo cimento. Um calendário fixo ignora isso por definição, e é por essa razão que a norma abandonou o calendário.

A tabela de dias que todo mundo cita. Prazos como três dias para face lateral, catorze dias para face inferior com pontaletes e vinte e um dias para retirada total circulam há décadas em apostila e em vídeo. Não os encontramos na NBR 14931:2004. Eles vêm de edições antigas da norma de projeto e sobrevivem por hábito. Como referência de ordem de grandeza continuam úteis; como critério de decisão foram substituídos.

Por que o módulo de elasticidade entra na conta

Porque resistência e rigidez são propriedades diferentes e não crescem no mesmo ritmo. A norma é explícita: a retirada só pode ser feita quando o concreto estiver suficientemente endurecido para resistir às ações e não conduzir a deformações inaceitáveis, tendo em vista o baixo valor do módulo de elasticidade e a maior probabilidade de grande deformação diferida no tempo quando o concreto é solicitado com pouca idade.

Traduzindo para o efeito visível: uma laje desformada cedo não desaba, ela barriga. A flecha que aparece nas primeiras semanas fica, e a deformação lenta que vem depois se soma a ela. O resultado é o piso que ficou mais baixo no meio do vão, a porta que raspa e o rodapé que abre uma fresta no centro da parede.

É por isso que a norma pede os dois valores ao mesmo tempo. Chegar a 15 MPa é uma coisa; ter rigidez para não deformar sob a carga do estágio é outra. Quem decide só pela resistência do corpo de prova está olhando metade do problema.

O que o plano de desforma precisa considerar

A norma lista os fatores: cargas devidas a fôrmas ainda não retiradas de outros pavimentos, sobrecargas de execução como movimentação de operários e material, a sequência de retirada e a possível permanência de escoramentos localizados, operações particulares em locais de difícil acesso, condições ambientais e de cura após a retirada, e exigências de tratamento superficial posterior.

A primeira linha dessa lista é a que mais surpreende quem constrói sobrado. Enquanto a laje de cima ainda está escorada, o peso dela e o do escoramento estão sendo transmitidos para a laje de baixo, que pode ainda ser jovem. Desformar o pavimento inferior porque ele já tem idade, sem considerar o que está apoiado nele, é carregar uma peça nova com a obra inteira.

A norma ainda exige, no item 7.2.2, que o plano da obra descreva o método para construir e remover as estruturas auxiliares, especificando requisitos de manuseio, ajuste, contraflecha intencional, desforma e remoção. Contraflecha intencional é a curvatura para cima dada à fôrma para que a peça fique plana depois de deformar. Quem não a executa entrega uma laje que já nasce com flecha.

A forma que também é cura

A norma trata o caso de forma direta: se a fôrma for parte integrante do sistema de cura, como em pilares e laterais de vigas, o tempo de remoção deve considerar os requisitos de cura da seção 10. Nessas peças a fôrma não está segurando carga, está segurando água.

Isso inverte a lógica intuitiva. A face lateral de uma viga é a primeira coisa que se quer tirar, porque não sustenta nada e libera material. Se ela é o que impede a superfície de secar, tirá-la no terceiro dia interrompe a cura da face que fica exposta ao ambiente pela vida inteira da peça. Quando a forma sai cedo, alguém precisa assumir a cura por outro método no mesmo instante.

As juntas e o que a forma pode estar prendendo

A norma pede atenção especial ao tempo especificado para retirada de escoramentos e fôrmas que possam impedir a livre movimentação de juntas de retração ou de dilatação, e também de articulações. Fôrma que atravessa uma junta impede a peça de se mover justamente enquanto ela mais quer se mover, que é durante a retração inicial.

O efeito é fissura em local errado. O concreto vai retrair de qualquer jeito; a junta existe para definir onde a abertura acontece. Se a fôrma trava a junta durante a retração, a peça abre em outro ponto, escolhido pela distribuição de tensões e não pelo projeto.

Retirar sem choque

O item 10.2.3 é curto e direto: a retirada do escoramento e das fôrmas deve ser efetuada sem choques e obedecer ao plano de desforma elaborado de acordo com o tipo da estrutura. Choque em peça jovem entra na mesma lista de agentes deletérios que a seção 10.1 traz, junto com secagem e congelamento.

Na prática isso significa desmontar em vez de derrubar. Escora de metal com rosca desce girando; pontalete de madeira sai com cunha, não com marreta. Painel de laje se solta com cunha nas bordas e desce apoiado, sem cair de uma vez. Cada uma dessas variações custa alguns minutos por peça e evita fissura que não se vê e não se conserta.

O uso de desmoldante compatível ajuda mais que a técnica de retirada. Fôrma que gruda exige força para sair, e força aplicada a uma peça jovem é exatamente o choque que a norma proíbe. O desmoldante também é o que preserva a fôrma para reaproveitamento, que a própria norma prevê desde que se verifique a capacidade resistente do material a cada reutilização.

Até onde esta página vai

Esta página descreve o critério da NBR 14931 na edição de 2004, que lemos, e essa norma foi revisada em 2023 com escopo ampliado para concreto armado, protendido e com fibras. Não citamos valores da edição nova porque não a conferimos na fonte. Definir os valores mínimos de resistência e de módulo de elasticidade para desforma, e a sequência de retirada do escoramento, é atribuição do responsável pelo projeto estrutural, como a própria norma estabelece. Nenhuma página substitui esse documento numa obra com estrutura de concreto armado.

Perguntas frequentes

Quantos dias para tirar a forma da laje?
A NBR 14931:2004 não dá número de dias. Ela exige que o responsável pelo projeto estrutural informe ao executante os valores mínimos de resistência à compressão e de módulo de elasticidade que devem ser obedecidos ao mesmo tempo para a retirada, além da necessidade de um plano de sequência de operações.
Posso tirar a forma lateral do pilar antes?
A forma lateral não sustenta carga, então o critério estrutural é mais folgado. A norma acrescenta um segundo critério: se a fôrma for parte integrante do sistema de cura, como no caso de pilares e laterais de vigas, o tempo de remoção precisa considerar os requisitos de cura. Tirar cedo interrompe a cura.
Por que não basta a resistência à compressão?
Porque a peça pode ter resistência suficiente e ainda deformar demais. O concreto jovem tem módulo de elasticidade baixo e maior probabilidade de deformação diferida no tempo quando solicitado com pouca idade. Uma laje desformada cedo aguenta a carga e fica com flecha permanente maior.
O que é escoramento remanescente?
É o escoramento que permanece em pontos localizados depois da desforma geral, previsto na sequência de retirada. A norma cita a possível permanência de escoramentos localizados entre os fatores que o plano de desforma precisa considerar, ao lado das cargas de fôrmas ainda não retiradas de outros pavimentos.
A desforma pode ser feita com marreta?
A norma pede que a retirada seja efetuada sem choques e de acordo com o plano de desforma elaborado para o tipo de estrutura. Choque em peça jovem produz fissura na massa e pode prejudicar a aderência entre concreto e armadura, e esse dano não é visível nem reversível.

A conta que este texto acompanha

Concreto e traço Cimento, areia, brita e água para concreto não estrutural.

Fontes