Guia de compra
Perda de material em obra
Quanto sobra de cada material numa obra, por que sobra e qual parte dessa sobra você deveria guardar em vez de jogar fora.
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A regra de loja é comprar 10 % a mais de tudo. Ela acerta em alguns itens e erra feio em outros. Piso e revestimento pedem de 10 % a 15 % no assentamento reto e 20 % na diagonal. Tijolo e bloco ficam perto de 10 %. Telha vai de 5 % num duas águas simples a 10 % em telhado recortado. Argamassa colante pede folga sobre o consumo da ficha, que sai publicado sem perda embutida. Papel de parede depende do rapport e pode passar de 25 %. Tinta é o único item da lista em que somar percentual costuma ser erro.
Esses números não têm todos o mesmo peso: uns saem de manual de fabricante, um sai de norma, outros são prática de mercado sem documento atrás. A tabela diz qual é qual.
Quanto comprar a mais de cada material?
Piso e revestimento: 10 % a 15 % no assentamento reto, 20 % na diagonal. Tijolo e bloco: 10 %. Telha cerâmica: 5 % em telhado simples, 10 % em telhado recortado. Argamassa colante: 10 % sobre o consumo da ficha. Papel de parede: 10 % sem rapport, 15 % ou mais com rapport. Tinta: nada, porque o rendimento publicado já é o acabado.
| Material | Acréscimo usual | Por que se perde | Procedência do número |
|---|---|---|---|
| Piso e revestimento, assentamento reto | 10 % a 15 % | Recorte de encosto e lascamento de canto no manuseio | Manual de fabricante |
| Piso e revestimento, diagonal ou espinha de peixe | 20 % | O retalho sai triangular e raramente encaixa em outro ponto | Manual de fabricante |
| Tijolo e bloco | 10 % | Corte de amarração no fim das fiadas e quebra na descarga | Prática de mercado |
| Telha cerâmica | 5 % a 10 % | Quebra no transporte e recorte em espigão, rincão e cumeeira | Prática de mercado |
| Argamassa colante | 10 % | Camada mais espessa que a nominal e material que passa do tempo em aberto | Ficha técnica mais prática |
| Papel de parede | 10 % a 25 % | Descarte na cabeça de cada faixa para alinhar a estampa | Prática de mercado |
| Tinta | nenhum | O rendimento publicado já contempla as demãos | Boletim técnico |
Perda medida e margem de compra são números diferentes
Margem de compra é quanto você acrescenta ao pedido. Perda medida é quanto a obra consumiu acima do previsto em projeto. Na pesquisa FINEP conduzida pela Poli/USP entre 1996 e 1998, a mediana de perda de placas cerâmicas foi de 14 %, com máximo de 50 %. A obra mediana estourou a margem de 10 % que o fabricante recomenda.
Foram 52 empresas e 69 obras, com o consumo real comparado ao de projeto, e ninguém repetiu o exercício nessa escala desde então. As medianas: blocos e tijolos 13 %, placas cerâmicas 14 %, tintas 17 %, aço 11 %, concreto usinado 9 %, cimento 56 %, areia 44 %.
Por que a diagonal pede 20 % e o assentamento reto pede 10 %
No assentamento reto o recorte é uma tira retangular, e o pedaço que sobra costuma servir na parede oposta. Na diagonal cada peça de borda sai cortada a 45 graus, e o triângulo que resta só encaixaria num canto de geometria idêntica. A Helena Porcelanato publica 10 % para o assentamento comum e 20 % para o diagonal.
A pesquisa da USP separa cortar de perder. No piso, a mediana de peças cortadas foi de 36 %, e na parede, 27 %, mas a perda de material ficou em 14 %: boa parte de cada peça cortada volta para a obra em outro ponto. É esse reaproveitamento que a diagonal elimina.
Os fabricantes divergem, e preferimos registrar. A Gaudi Porcelanato pede no mínimo de 10 % a 15 % e acrescenta o que quase nenhum texto sobre perda cita: ambiente pequeno gera mais perda. O recorte acontece no perímetro, e num banheiro de 3 m² o perímetro é enorme diante da área. O extremo medido pela USP em piso foi de 89 % de peças cortadas. Para converter o percentual em caixa fechada, use a calculadora de piso.
Quanto de tijolo e bloco comprar a mais?
Cerca de 10 %. A pesquisa da USP mediu 13 % de blocos e tijolos cortados na parede, com variação de 0 % a 34 % entre obras, e mediana de apenas 0,3 % de peças quebradas no recebimento. A perda de alvenaria é quase toda de corte, e ela depende de quanto as medidas da parede combinam com o módulo do bloco.
Bloco de 39 cm com junta de 1 cm fecha módulo de 40 cm. Parede de 3,20 m cai redonda em oito blocos por fiada; parede de 3,05 m obriga um corte por fiada, catorze cortes numa parede de 2,80 m de altura. Metade desses pedaços volta na fiada seguinte, se o pedreiro guardar. Nossa calculadora de tijolos trabalha pelo módulo em vez de dividir área por área.
A quebra tem um detalhe. A mediana no recebimento foi de 0,3 %, mas o máximo medido foi de 22 %. A diferença entre os dois números é a descarga.
Quanto sobra de telha?
De 5 % em telhado de duas águas a 10 % em telhado com espigão, rincão e claraboia. Esse intervalo é prática de mercado, não norma. O que a ABNT NBR 15310 define é o rendimento médio em telhas por metro quadrado, que o fabricante precisa gravar na própria peça, com tolerância de 1 %.
Leia a peça antes de aceitar a tabela do vendedor. A norma manda gravar em relevo, em caracteres de no mínimo 5 mm, o modelo, as dimensões e o rendimento médio seguido da inscrição T/m². A tolerância dimensional admitida é de 2 %, o que já explica parte do desencontro entre a conta e o que sobe no telhado.
Não encontramos percentual de perda de telha publicado em norma nem em pesquisa brasileira com amostra relevante. O 5 % a 10 % é o que a prática consolidou, e quem repete o número deveria dizer isso.
Por que tinta não entra na regra dos 10 %
Porque o número impresso na lata já é o rendimento acabado, a área pronta depois das duas ou três demãos que o boletim indica. O boletim da Coralar Acrílico + Desempenho traz até 90 m² na lata de 18 L com 2 a 3 demãos. Multiplicar esse 90 pelas demãos e comprar três latas triplica o pedido sem motivo.
O rendimento acabado é exigência da ABNT NBR 15079-1, e a Coral declara conformidade no próprio boletim. Uma sala de 4,50 m por 3,50 m com pé-direito de 2,70 m tem 43,20 m² de parede, ou perto de 39,70 m² descontadas uma porta e uma janela. Uma lata de 18 L cobre com folga.
A perda de tinta existe, e ela é de absorção. Reboco novo, gesso e parede caiada bebem a primeira demão, e o mesmo boletim manda diluir 50 % em superfície não selada e aplicar fundo preparador. Sem selador, nenhum percentual de compra conserta o rendimento. A calculadora de tinta parte da área acabada e do rendimento da embalagem.
Argamassa: a perda não cai no chão, ela vai na espessura
A maior perda de argamassa em obra é aplicar mais espesso que o especificado. A pesquisa da USP mediu revestimento interno 43 % mais espesso que o projeto na mediana, com máximo de 134 %, e juntas de alvenaria 64 % acima do especificado. Nada disso é desperdício visível: o material foi todo para a parede.
Um emboço especificado com 2 cm e executado com 3 cm consome 50 % a mais sem que um grama caia no chão. Como a espessura só aparece depois que a parede está pronta, ninguém percebe até o cimento acabar antes da hora.
Na argamassa colante o controle é mais fácil. A ficha do Votomassa Colante AC III publica 4 kg/m² para peça de menos de 400 cm², 5 kg/m² entre 400 e 900 cm² e 9 kg/m² acima disso, e escreve no mesmo item que nesses valores não estão consideradas perdas durante a aplicação. Um cômodo de 14,40 m² em 60x60 pede 129,6 kg, ou 6,5 sacos de 20 kg. Sete sacos deixam 10,4 kg de folga, perto de 8 %, que cobre o cordão mais alto que o dente da desempenadeira e o material que endurece na masseira.
Papel de parede: o rapport come mais que o recorte
Rapport é o intervalo em que a estampa se repete na vertical. Cada faixa precisa começar no mesmo ponto do desenho, então o corte tem que ser um múltiplo do rapport maior que o pé-direito. O que passa disso vai fora antes de a faixa subir na parede.
A conta mostra o tamanho do efeito. Rolo de 0,53 m por 10 m, parede de 4,00 m de largura por 2,40 m de altura, oito faixas para cobrir a largura. Em papel liso cada faixa mede 2,40 m, cabem quatro por rolo e dois rolos resolvem. Com rapport de 64 cm a faixa precisa sair com 2,56 m, o menor múltiplo de 64 acima de 2,40, e aí só cabem três por rolo: as oito faixas passam a exigir três rolos. Mesma parede, 50 % a mais de rolo, e 28 % do material comprado vira sobra contra 4 % no papel liso.
O rapport vem impresso na embalagem em centímetros. Confira antes de fechar o pedido, e compre todos os rolos de uma vez: lote diferente sai com tonalidade diferente.
Sobra de porcelanato não é desperdício
Perda é o material que o recorte consome durante o assentamento. Reserva de manutenção é o que fica guardado para repor uma peça quebrada anos depois. Os dois saem do mesmo pedido, mas só o primeiro tem destino garantido. Quem calcula 10 % e gasta os 10 % em recorte terminou a obra sem reserva nenhuma.
Piso cerâmico é queimado em lotes, e cada lote tem a sua tonalidade. A Helena Porcelanato justifica o próprio acréscimo por essa via: pede o material extra porque a fábrica pode alterar tonalidade, alterar formato ou tirar o produto de linha sem aviso prévio. A Gaudi recomenda guardar uma caixa identificada para o caso de precisar de complemento.
Uma peça que rachar daqui a três anos porque caiu uma panela de ferro só será trocada sem emenda visível se existir peça guardada do lote original. Comprar de novo produz um tom próximo, e tom próximo no meio de um piso pronto salta mais aos olhos que a rachadura.
Até onde esta página vai
Os percentuais aqui servem para pedido de material em reforma residencial e obra pequena. Não valem para material sob medida: bancada de pedra, esquadria e vidro temperado são cortados a partir de projeto e não admitem acréscimo percentual. Aço e concreto têm perda medida perto de 10 %, mas a quantidade sai de projeto estrutural assinado, e a compra acompanha o memorial de cálculo.
Fontes
- Pesquisa FINEP "Alternativas para a redução do desperdício de materiais nos canteiros de obras", Volume 3, indicadores globais de perdas por material Quadro geral com média, mediana, mínimo, máximo e tamanho de amostra. Daqui saem as medianas de 13 % para blocos e tijolos, 14 % para placas cerâmicas e 17 % para tintas.
- Mesma pesquisa, Volume 3, indicadores parciais de perdas de materiais Percentual de peças cortadas, 36 % no piso e 27 % na parede; 13 % de blocos cortados na alvenaria; e a variação de espessura do revestimento interno, 43 % acima do especificado na mediana.
- Mesma pesquisa, Volume 1, item 2, dimensão da pesquisa Registra 52 empresas e 69 obras acompanhadas. A capa do Volume 1 data o levantamento de outubro de 1996 a maio de 1998, com relatório em setembro de 1998, no PCC da Escola Politécnica da USP.
- Helena Porcelanato, Manual de Orientações, seção Assentamento Pede 10 % a mais para recortes e 20 % em caso de assentamento em diagonal, e justifica o acréscimo pela possibilidade de mudança de tonalidade, de formato ou de retirada do produto de linha sem aviso prévio.
- Gaudi Porcelanato, Manual de informações gerais de produtos, edição 2024 Pede no mínimo 10 % a 15 % para quebras e recortes, observa que ambientes pequenos geram mais perdas e recomenda guardar uma caixa identificada para complemento futuro.
- Votomassa Colante AC III, ficha técnica de produto, item 9, rendimento Consumo médio de 4, 5 e 9 kg/m² conforme a área da peça, com a ressalva escrita de que nesses valores não estão consideradas perdas durante a aplicação do produto.
- Coral, boletim técnico Coralar Acrílico + Desempenho Rendimento acabado de até 90 m² na lata de 18 L, com indicação de 2 a 3 demãos e declaração de conformidade com a ABNT NBR 15079-1.
- ABNT NBR 15310:2005, telhas cerâmicas, itens 4.6.2, 5.2 e anexo A Cópia hospedada por docente da PUC Goiás. Define rendimento médio como 1 m² dividido pela área útil da telha, obriga a gravação do valor em T/m² na própria peça e admite tolerância de 1 % nesse rendimento.