Alvenaria
Argamassa de assentamento
A argamassa de assentamento é o material que mais some em obra sem ninguém ver, porque ela não cai no chão: ela vai toda para dentro da parede.
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A junta de assentamento tem 1 cm porque é ela que completa o módulo: bloco de 39 cm mais 1 cm dá 40 cm, e bloco de 19 cm de altura mais 1 cm dá 20 cm. Essa junta consome cerca de 10,3 litros de argamassa por metro quadrado numa parede de 14 cm assentada com a junta cheia em toda a largura. Se ela vira 1,5 cm, o consumo sobe para cerca de 15,1 litros, um aumento de 46 % sem nenhum desperdício visível. E a pesquisa que mediu isso em obra real encontrou juntas 64 % mais espessas que o especificado na mediana.
A quantidade de blocos e o volume de argamassa do seu caso saem da calculadora de tijolos, que trabalha pelo módulo.
Como sai o consumo por metro quadrado
Pela fração de área que a junta ocupa na face da parede, multiplicada pela espessura. Num módulo de 40 por 20 cm, o bloco ocupa 39 por 19 cm, ou 0,0741 m², e o módulo inteiro ocupa 0,08 m². A junta fica com 0,0059 m², ou 7,4 % da face. Numa parede de 14 cm, isso dá 0,0103 m³ por metro quadrado, ou 10,3 litros.
| Junta | Módulo | Fração de junta na face | Consumo em parede de 14 cm |
|---|---|---|---|
| 1,0 cm | 40 x 20 cm | 7,4 % | 10,3 L/m² |
| 1,5 cm | 40,5 x 20,5 cm | 10,8 % | 15,1 L/m² |
| 2,0 cm | 41 x 21 cm | 14,0 % | 19,5 L/m² |
A conta é nossa, feita a partir das dimensões de fabricação da NBR 15270-1, e vale para junta cheia em toda a largura da parede. Quem assenta apenas nos cordões laterais, deixando o miolo vazio, consome menos, e a técnica tem nome e uso legítimo em alguns sistemas. O que não existe é consumo baixo com junta espessa.
A perda que a pesquisa mediu
A pesquisa FINEP conduzida pela Poli da USP entre 1996 e 1998, em 52 empresas e 69 obras, mediu juntas de alvenaria 64 % acima da espessura especificada na mediana. Não é material jogado fora: é material que foi para a parede além do previsto. Por isso ele não aparece na limpeza do canteiro nem na sobra do fim de obra.
O mesmo levantamento mediu revestimento interno 43 % mais espesso que o especificado na mediana, com máximo de 134 %. As duas medidas apontam para a mesma causa: a espessura de camada é a variável que ninguém controla porque ela só é visível enquanto o pedreiro trabalha, e depois some dentro da parede.
Os números de perda por material do mesmo estudo ajudam a entender o efeito acumulado: mediana de 56 % para cimento e 44 % para areia. São os dois insumos que entram na argamassa de assentamento e na de revestimento, e a espessura excessiva das duas camadas explica boa parte disso.
O que junta grossa faz além de gastar
Ela desalinha a parede com o módulo. Se a junta cresce, o bloco sobe mais rápido do que o projeto previu, e o encontro com a laje, o vão da porta e a altura da janela deixam de fechar em número inteiro de fiadas. O que era um corte planejado vira corte improvisado.
A pesquisa mediu 13 % de blocos cortados na alvenaria, com variação de 0 % a 34 % entre obras. Parte disso é geometria do projeto, e parte é acúmulo de junta fora do módulo. Uma parede de 2,80 m de altura com módulo de 20 cm fecha em 14 fiadas exatas; com junta de 1,5 cm, o módulo vira 20,5 cm e 14 fiadas dão 2,87 m, sobrando 7 cm para resolver na última fiada.
Junta grossa também é junta mais deformável, e alvenaria com muita argamassa e pouco bloco fica mais sujeita a retração. É o tipo de causa que aparece anos depois como trinca horizontal acompanhando a fiada.
Como controlar a espessura na obra
Com escantilhão e com meia-cana. O escantilhão é a régua graduada nas duas pontas da parede, com as fiadas marcadas no módulo correto, e a linha estendida entre elas define a altura de cada fiada. A meia-cana, ou bisnaga, aplica um cordão de espessura constante em vez de deixar a colher decidir.
É a única forma barata de fazer a espessura parar de variar. Sem escantilhão, cada fiada se apoia na anterior, e um erro de 2 mm se acumula ao longo de catorze fiadas até virar quase 3 cm de diferença no encontro com a laje.
Vale conferir também a hidratação do bloco. Bloco cerâmico absorve entre 8 % e 22 % da massa seca em água, pela norma, e um bloco muito seco puxa a água da argamassa antes de ela ser nivelada. O pedreiro compensa isso colocando mais argamassa, e a espessura cresce por um motivo que não tem nada a ver com a argamassa.
Industrializada ou feita na obra
A industrializada chega dosada, e a variação entre uma masseira e a seguinte desaparece. A feita na obra sai mais barata por metro cúbico e depende de quem mede o traço, quase sempre em lata. As duas funcionam; o que muda é quanto controle existe sobre a dosagem.
O ponto fraco da argamassa feita na obra não é o traço em si, é a medição. Lata de tinta usada como padrão de volume varia de tamanho, enche diferente conforme o material está solto ou compactado, e o inchamento da areia úmida muda o volume aparente sem mudar a massa. A discussão completa sobre isso está em lata, padiola, saco e carrinho.
Quem quiser a versão barata com controle usa padiola de madeira com volume conferido, em vez de lata. Custa uma tarde de carpintaria e elimina a maior fonte de variação de dosagem de uma obra pequena.
Até onde esta página vai
Os consumos aqui são calculados pela geometria da junta, a partir de dimensões de fabricação de norma, e valem como estimativa de compra em alvenaria de vedação. Traço de argamassa de assentamento depende do uso, do tipo de bloco e da exposição, e em alvenaria estrutural ele é definido em projeto, com resistência especificada e controle. Argamassa de revestimento tem outra função, outra espessura e outra norma. Dosagem com resistência exigida, ensaio e controle tecnológico são trabalho de profissional habilitado.
Perguntas frequentes
- Quanta argamassa gasta por metro quadrado de parede?
- Para bloco de 39 por 19 cm em parede de 14 cm, com junta de 1 cm cheia em toda a largura, a geometria dá cerca de 10,3 litros por metro quadrado de parede. O número muda com a espessura da parede, com a largura da junta e com a técnica de assentamento.
- Meio centímetro a mais na junta muda muito?
- Muda 46 %. Passando a junta de 1,0 cm para 1,5 cm na mesma parede de 14 cm, o consumo sai de cerca de 10,3 para cerca de 15,1 litros por metro quadrado. É a variável isolada que mais mexe no consumo de argamassa de assentamento.
- Por que a junta tem 1 cm?
- Porque ela completa o módulo. Bloco de 39 cm com junta de 1 cm fecha 40 cm; bloco de 19 cm de altura com a mesma junta fecha 20 cm. Toda a modulação da alvenaria depende dessa soma, e mudar a junta desalinha a parede com o projeto de paginação.
- Quanto de argamassa se perde de fato?
- A pesquisa da Poli/USP mediu juntas 64 % mais espessas que o especificado na mediana das obras acompanhadas. Não é material caindo no chão: é material que foi para a parede além do previsto, e por isso a perda não aparece na limpeza do canteiro.
- Argamassa industrializada ou feita na obra?
- A industrializada entrega dosagem constante e dispensa a medição em lata, que é a maior fonte de variação em obra pequena. A feita na obra sai mais barata por metro cúbico e depende inteiramente de quem mede. A escolha honesta passa por quanto controle você consegue exercer sobre a masseira.
A conta que este texto acompanha
Tijolos e blocos Peças por m² de parede e volume de argamassa de assentamento.
Fontes
- Pesquisa FINEP "Alternativas para a redução do desperdício de materiais nos canteiros de obras", Volume 3, indicadores parciais de perdas Levantamento conduzido pelo PCC da Escola Politécnica da USP. Mediu juntas de alvenaria 64 % acima da espessura especificada na mediana das obras e revestimento interno 43 % mais espesso que o projeto, com máximo de 134 %. Registra também 13 % de blocos cortados na alvenaria.
- Mesma pesquisa, Volume 3, indicadores globais por material Quadro geral com as medianas de perda por material, entre elas 56 % para cimento e 44 % para areia, com o tamanho de amostra de cada uma.
- Mesma pesquisa, Volume 1, item 2, dimensão da pesquisa Registra 52 empresas e 69 obras acompanhadas, com levantamento entre outubro de 1996 e maio de 1998 e relatório em setembro de 1998.
- ABNT NBR 15270-1:2005, blocos cerâmicos para alvenaria de vedação Cópia hospedada pela PUC Goiás. Fornece as dimensões de fabricação dos blocos usadas aqui no cálculo do módulo e do volume de junta, e a tolerância de mais ou menos 3 mm na média das dimensões efetivas.