NBR 10844
Telhado embutido e platibanda
Platibanda esconde o telhado e resolve a fachada. Ela também move a calha para dentro do perímetro da casa, e muda o destino da água quando alguma coisa dá errado.
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Telhado embutido é o telhado escondido atrás de uma platibanda, aquela mureta que sobe além da laje e dá à casa a aparência de teto reto. Ele funciona, e funciona há décadas. O que ele faz é mudar duas coisas ao mesmo tempo: a calha deixa de ser de beiral e passa a ser de platibanda, instalada dentro do perímetro da edificação, e a altura disponível para o telhado passa a ser limitada pela altura da mureta. As duas mudanças empurram na mesma direção errada.
A inclinação que a telha exige está em cálculo de inclinação de telhado, e o quanto ela cresce com o comprimento da água está em inclinação mínima e comprimento da água.
Por que a água volta para dentro?
Porque a calha mudou de lugar. Uma calha de beiral que transborda joga água no chão do lado de fora da parede. Uma calha de platibanda que transborda joga água na face interna da mureta, e daí ela escorre para o forro, para a laje e para a parede da sala. O volume de chuva é o mesmo; o destino do excesso é que deixou de ser inofensivo.
A NBR 10844 reconhece essa diferença no item 5.1.2, e ela aparece no lugar mais importante do dimensionamento, que é o período de retorno. Cobertura comum se dimensiona para a chuva de 5 anos. Cobertura onde empoçamento ou extravasamento não pode ser tolerado se dimensiona para a chuva de 25 anos. Calha embutida está no segundo caso, e chuva de 25 anos é bem mais intensa que chuva de 5.
O conflito entre a mureta e a inclinação
A platibanda precisa ser mais alta que o ponto mais alto do telhado para escondê-lo. Quanto maior a inclinação, mais alta a mureta. Como a mureta alta encarece e pesa, a tentação é baixar a inclinação, e é aí que o telhado embutido produz a sua patologia clássica: água que retorna por baixo da sobreposição das telhas.
A conta mostra o tamanho do aperto. Uma água de 6 metros pede 36 % pela regra da ANICER, o que dá 2,16 m de altura sobre o apoio. Para esconder isso, a platibanda precisa passar de 2,16 m acima da laje, o que é praticamente um segundo pavimento de alvenaria só de mureta. Quem quer platibanda de 60 cm com água de 6 metros está pedindo 10 % de inclinação, e nenhuma telha cerâmica trabalha aí.
As saídas honestas são três. Dividir a água ao meio, com duas quedas voltadas para lados opostos e calha nos dois. Trocar a telha cerâmica por telha metálica ou por fibrocimento, que aceitam inclinações bem menores. Ou abandonar a telha e impermeabilizar a laje, assumindo que a cobertura passa a ser uma laje plana com caimento de 0,5 % e drenagem por ralos, e não um telhado.
O que a norma exige na cobertura de laje
Declividade mínima de 0,5 % até os pontos de drenagem, drenagem por mais de uma saída exceto quando não houver risco de obstrução, subdivisão da cobertura em áreas menores com caimentos de orientações diferentes quando necessário, e platibanda ou calha em todo trecho perimetral que possa receber água por causa do caimento.
Esses quatro itens do 5.4 são o roteiro de uma laje que não vaza, e o segundo é o mais ignorado. Uma laje com um único ralo tem um ponto de falha: quando ele entope com folha, a laje inteira vira piscina. O item 5.4.6 ainda manda usar ralo hemisférico onde o ralo plano possa causar obstrução, que é exatamente o caso de cobertura com árvore por perto.
O item 5.4.4, sobre subdividir a cobertura, é o que resolve laje grande. Percursos de água longos exigem mais altura de caimento no ponto de partida, e a lâmina fica mais alta perto do ralo. Duas áreas com caimentos opostos e dois ralos custam um ralo a mais e resolvem os dois problemas.
Rufo, contrarrufo e o encontro com a mureta
O rufo é a peça que veda o encontro do telhado ou da laje com a alvenaria vertical, e a platibanda é alvenaria vertical em todo o perímetro. O guia da ANICER lista a falta de vedação de rufos entre as causas diretas de passagem de água, umidade na parede e deterioração da pintura, e manda verificar essa vedação anualmente.
O detalhe que decide é o transpasse. O rufo precisa entrar na alvenaria ou por baixo do revestimento, de modo que a água que escorre pela face interna da mureta caia por cima do rufo, e não atrás dele. Rufo apenas encostado na parede e selado com silicone funciona por uma estação. O silicone perde aderência, a água encontra o caminho por trás e a mancha aparece no teto, normalmente longe do ponto de entrada.
Vale desconfiar do diagnóstico fácil. Mancha no teto perto da parede quase nunca é telha quebrada. É rufo, calha ou o encontro dos dois. O caminho está descrito com mais detalhe em goteira no telhado.
Como testar antes de fechar o forro
Com mangueira e uma tarde. Tampe a saída da calha, encha a calha até o nível do bordo livre e veja onde a água aparece. Depois libere e jogue mangueira aberta na área que a calha atende, por vinte minutos, observando a calha correr sem acumular. É um ensaio grosseiro, e ele encontra a maior parte dos erros de execução.
Esse teste custa quase nada antes de o forro subir e custa uma reforma depois. Vale fazer também com o extravasor previsto no item 5.5.5 da norma, que é um furo de segurança descarregando em local escolhido. Numa calha de platibanda ele deveria ser obrigatório de fato, porque a alternativa a um extravasor é a casa escolher o ponto de transbordo.
Até onde esta página vai
Esta página trata do arranjo hidráulico e da geometria. Impermeabilização de laje tem norma própria, com escolha de sistema, preparo de superfície, ensaio de estanqueidade e prazos que não cabem aqui. Estrutura da platibanda, que é uma parede alta sujeita a vento, e verificação de ação do vento pela NBR 6123 são projeto de profissional habilitado. E o dimensionamento da calha em si está em calha e condutor de água de chuva, com as tabelas de capacidade da norma.
Perguntas frequentes
- Telhado embutido dá problema mesmo?
- Ele não é defeituoso por natureza, mas concentra três riscos: obriga a calha a ficar dentro do perímetro da casa, tende a espremer a inclinação da telha para caber atrás da platibanda, e transforma qualquer transbordamento em infiltração interna em vez de água caindo no jardim.
- Qual a inclinação mínima da laje de cobertura?
- Meio por cento, pelo item 5.4.2 da NBR 10844, de modo a garantir o escoamento até os pontos de drenagem previstos. O item 5.4.1 pede que a laje seja projetada para evitar empoçamento, exceto quando a cobertura for especialmente projetada para acumular água temporariamente.
- Calha de platibanda precisa ser maior?
- Precisa ser dimensionada com período de retorno maior. O item 5.1.2 da NBR 10844 manda adotar 25 anos em coberturas e áreas onde empoçamento ou extravasamento não possa ser tolerado, contra 5 anos em cobertura comum. Chuva de 25 anos é mais intensa, e a calha resultante é maior.
- O que é bordo livre da calha?
- É o prolongamento vertical da calha acima da lâmina de água de projeto, com a função de evitar transbordamento, definido no item 3.3 da NBR 10844. Numa calha de platibanda ele é a única coisa entre a água e o forro da casa, e é o primeiro item que some quando a calha é feita rasa para caber.
- Preciso de rufo mesmo com platibanda?
- Sim. O rufo é a peça que veda o encontro do telhado com a alvenaria vertical, e a platibanda é justamente uma alvenaria vertical no perímetro. Sem rufo, ou com rufo mal transpassado, a água escorre pela parede e entra pela junta entre a última telha e o reboco.
A conta que este texto acompanha
Inclinação de telhado Inclinação em porcentagem e em graus, com o mínimo por tipo de telha.
Fontes
- ABNT NBR 10844:1989, instalações prediais de águas pluviais, itens 3.3, 3.8, 5.1.2, 5.4 e 5.5 Cópia hospedada pelo grupo de Engenharia Civil da UFES. Define calha de platibanda e bordo livre, fixa período de retorno de 25 anos onde empoçamento ou extravasamento não pode ser tolerado, exige declividade mínima de 0,5 % em laje e em calha, manda mais de uma saída na cobertura de laje e prevê extravasor quando nenhum transbordamento é aceitável.
- ANICER, Guia Prático de Execução de Cobertura com Telhas Cerâmicas, itens 4.3, 8 e 9.1 Lista a platibanda e o rufo entre os elementos do telhado, declara que a inclinação mínima da telha vale para até 3,0 m de comprimento com acréscimo de 2 % por metro adicional, e aponta a falta de vedação de rufos e calhas como causa de passagem de água, umidade na parede e deterioração da pintura.
- Domus Telhas, Manual Técnico, informações técnicas Coppo Veneto e Plana Tabela de inclinação mínima por comprimento de telhado, usada aqui para mostrar o conflito entre a altura que a platibanda esconde e a inclinação que a telha exige.